quinta-feira, dezembro 22, 2005

Barca de Caronte


Caronte é uma divindade infernal da mitologia grega. Sua função era atravessar as almas dos mortos pelo rio Aqueronte - e só recebia as almas daqueles que haviam sido sepultados, exigindo-lhes o óbolo como pagamento para a travessia. As almas que não levavam o óbolo, ou não haviam sido sepultadas, ficavam chorando eternamente nas margens dos rios infernais.


Lá vem a Barca de Caronte
levando embora o ano velho.
Joga sua moeda,
permite sua passagem
no fluxo do tempo.
Deixa que mais um ano
vá pelas águas correntes
do Universo circular.
E que venha outro
Ano Novo.

Solange Firmino


Figura:Barca de Caronte

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Teatro, eterno palco




O Teatro parece estar presente em qualquer tempo do que conhecemos como a história da humanidade. Seja como religiosidade, entretenimento ou outras expressões, a arte de representar expressou, em todas as épocas, os questionamentos do homem, que buscava compreender os mistérios da criação do mundo, da sua existência e de outros elementos que a memória mítica preservou.


O homem das primeiras sociedades tentava explicar seus problemas existenciais e sociais através dos mitos. Assim, aos fenômenos da natureza era atribuída uma origem divina. A Religião (do latim “religare”, ato de ligar) une o homem ao divino pela realização dos diferentes ritos lembrados pelos mitos.


A origem do teatro está nessas sociedades, em que atividades como danças, cultos aos deuses e elementos da natureza eram ritos considerados necessários à sobrevivência do grupo. Essas representações podem ser consideradas como início da expressão teatral pela forma imitativa com que eram realizadas.

Há exemplos de manifestações teatrais em vários povos antes dos helenos. Contudo, a herança do teatro ocidental está ligada aos mitos gregos e aos festivais religiosos em honra ao deus Dioniso.


Posteriormente, os próprios gregos formalizaram o teatro como espaço cênico e não mais como um ritual religioso. Através da mitologia grega, como conjunto das narrativas sobre deuses, heróis e homens, é possível acompanhar as transformações do pensamento daquela sociedade e das suas reproduções nas artes. Assim como as circunstâncias históricas, as artes também se modificam. Os deuses descritos por Hesíodo são diferentes dos deuses de Homero.


No século XXI, as máscaras carnavalescas não têm o mesmo significado que as tradicionais máscaras teatrais gregas. Mas o teatro grego e a mitologia ainda são referências em todas as artes. Mudam-se os mitos, os ritos e as religiões, mas o teatro continua sendo o eterno palco onde o homem expõe suas relações com o mundo.


Solange Firmino

*Texto escrito para a coluna "Célebres cenas" da E-Zine Entre Palavras.

 


Síndromes, complexos e literatura


Se você procurar “Peter Pan” entre as comunidades em português do Orkut, achará 136 ocorrências. As chamadas são muitas: se você gosta de fantasia e encantos, se sonha em ver o Peter Pan na janela vindo te buscar para viver na Terra do Nunca, se acha que a vida adulta é estressante e chata e não está a fim de assumir responsabilidades, você tem alguns motivos para ser fã do Peter Pan.

Peter Pan é um personagem tão conhecido quanto vários outros dos contos clássicos, como Cinderela e Chapeuzinho Vermelho. Eu o conheci pelas histórias de Walt Disney, nunca li o romance de J. M. Barrie, que criou a história de Peter Pan enquanto esteve com Sylvia Llewelyn Davies e sua família.

Em 1902, Barrie publicou seu livro. Em 1904, houve uma adaptação para a peça que estreou em Londres. Desde então, sua história ganhou várias adaptações, desde musicais a versões animadas para o cinema, de Walt Disney a Steven Spielberg. A última boa adaptação foi o filme “Em busca da Terra do Nunca” (Finding Neverland”), de Marc Forster, em que se imagina de modo muito romântico o que teria acontecido nos encontros de Barrie e a família de Sylvia.

Chorei muito com a história, que não representa exatamente a realidade, mas um conto de fadas nos moldes tradicionais, uma linda fantasia em homenagem ao escritor e seu personagem inspirador. E Barrie é Johnny Depp, o que faz com que eu deseje não ser eternamente criança...

Eu não era exatamente criança quando me interessei mais profundamente sobre por Peter Pan. Li o livro “Síndrome de Peter Pan”, do psicólogo americano Dan Kiley, não por que entendia de psicologia, eu tinha 15 anos e encontrei o livro na biblioteca da escola. Na década de 80, o livro era bastante famoso, como o Complexo de Cinderela, de Colette Dawling.

Depois da leitura, e não posso dizer que tenha entendido, eu quis ser psicóloga. Não sou. Peguei emprestado porque gostava das aventuras mágicas do menino que não queria crescer. Também não entendia muito bem o que era “aquele” crescer. Na época, crescer era não caber nos balanços que meu pai fazia nas árvores do quintal ou ter que aturar as gracinhas dos alunos das séries acima da minha.

A temática da Síndrome de Peter Pan é o crescimento, quando se quer ser sempre criança para não enfrentar as responsabilidades do mundo adulto, que não são poucas! O termo é psiquiátrico e designa o adulto que recusa esse comprometimento e não age conforme sua idade.

Muitos outros elementos da história de Peter Pan foram estudados em várias épocas, desde leituras freudianas com implicações sexuais até as relações arquetípicas de Wendy, quando uma mulher deseja homens imaturos e mais novos que ela.

Muitas síndromes têm seus conceitos baseados em personagens da literatura. Eles influenciam a vida pessoal de tal modo que passam a simbolizar, no coletivo, nossas angústias conscientes e inconscientes. A vida imita a arte ou a arte imita a vida?

Freud, a partir dos relatos de experiências infantis, baseou-se na tragédia de Sófocles, Édipo-Rei, para ilustrar seu Complexo de Édipo, aversão ao pai e preferência pela mãe. Édipo matou o pai, Laio, e casou com a própria mãe, Jocasta. Na mulher, a tendência contrária chama-se Complexo de Electra. Electra, filha de Agamenon e Clitemnestra, depois do assassinato de seu pai pelo amante da mãe, sente o desejo de vingar o pai, incitando a morte da mãe. Electra passa a simbolizar o amor passional pelos pais a ponto de querer sua igualdade pela morte.

Mas não só a literatura grega é inspiradora dos conceitos psicanalíticos. Qualquer outra obra que trate da complexidade do ser humano poder ser um protótipo ou arquétipo para o mundo real, como as figuras de Dom Quixote, Hamlet e praticamente todos os clássicos da literatura infantil.

Muito já se estudou sobre os simbolismos das histórias infantis em Charles Perrault, Hans Christian Andersen e os irmãos Jacob e Wilhelm Grimm, ou você nunca leu sobre o Barba Azul, O Patinho Feio, O Pequeno Polegar e a Bela Adormecida? Se pensar bem, todos têm sua conotação moral, e todos foram adaptados de várias maneiras com o passar dos séculos.

Don Juan é um personagem literário que também inspirou uma síndrome e vários filmes e adaptações, como em obras de Strauss e Mozart. Não faz muito tempo, Marlon Brando e Johnny Depp (de novo...) estrelaram no cinema o filme Don Juan de Marco. No século XVII, Don Juan foi um personagem atribuído ao dramaturgo espanhol Tireso de Molina. Hoje, na era do “ficar” como ideal de relacionamento, Don Juan é símbolo da libertinagem e do eterno sedutor.

E sedutora é para nós, adultos, que já vimos os dois lados da vida, a Terra do Nunca. É o lugar para onde desejamos ir sempre que não sabemos lidar com o chamado mundo real. Os sonhos morrem se não acreditamos neles. Sininho também. A crença na magia faz a imaginação voar. Não temos asas, mas até que já inventamos o avião, o sonho que muitos sonharam e puderam concretizar.

Não só as crianças sonham com a Terra do Nunca “crescer”. Nossa sociedade faz de tudo para preservar a jovialidade, mas só na beleza física, infelizmente. É o que se nota no esporte, na novela, no cinema, na música...

Em todos os períodos da história, diversos povos criaram seus mitos sobre a fonte da juventude. O tempo não pára e a morte é nossa única certeza. Como manter o corpo belo e jovem diante desse “infortúnio”? A jovialidade do espírito raramente é mencionada nos manuais e dietas para manter o corpo jovem.

Goethe terminou seu Fausto aos 82 anos e Franklin, aos 81 anos, ainda ajudava a elaborar a Constituição dos Estados Unidos. Exemplos assim só afirmam o lugar-comum de que jovialidade tem a ver com a alma e não com o corpo. Cada idade tem seus momentos bons e ruins e a literatura também pode ajudar a perceber isso, sem síndromes ou complexos.

Aliás, qual o seu complexo, digo, qual seu personagem preferido? O Lobo Mau ou um dos Três Porquinhos? A bela ou a fera? A bruxa ou a fada? Brincadeira. Mas envelhecer permanecendo o espírito jovem é o melhor que podemos fazer, já nos mostrou bem Peter Pan. E viajar pelo mundo da fantasia é um modo de lidar com o inconsciente sem repressões, mas deixe os complexos por lá mesmo!


Texto publicado na coluna Orkultural de 9 de dezembro de 2005.

*Imagem: Peter Pan.

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Mensagens Oníricas

Figura: Salvador Dalí
Desde os tempos mais remotos, o homem utiliza seus sonhos para obter conselhos, resolver problemas e curar suas enfermidades. Antigas gravações sobre tábuas de pedra revelam que os Gregos, do século VI a.C. ao século V d.C., realizavam nos santuários de Esculápio - deus da saúde, curas miraculosas através dos sonhos.

Mas eles não foram os únicos. Hebreus, Egípcios, Hindus, Chineses, Japoneses e Muçulmanos também praticaram a cura através dos sonhos. Até mesmo Hipócrates - pai da medicina moderna, escreveu um “Tratado dos Sonhos”, onde indica a utilização terapêutica de certos símbolos oníricos.
Os psicólogos modernos vêem os sonhos com uma linguagem do inconsciente, portanto, uma realidade psicológica.

Queiramos ou não, os sonhos nos afetam. Tratam de uma realidade com a qual temos de conviver e, por isso, temos de entendê-la, ainda que basicamente, para que possamos integrá-la de forma positiva às nossas vidas.
Todos temos em nosso interior uma série de sonhos artísticos, familiares, econômicos, sociais, políticos, etc.
Todos estamos em contato com esse mundo interior onde vivem os Arquétipos, onde estão os sonhos.

(...)

Leia o texto completo em Blocos online:

Mensagens Oníricas


sábado, outubro 01, 2005

(des)aniversário




(Des)ANIVERSÁRIO

Às vezes
sou carne
sem tempo
dúvida antiga
no futuro
meu pretérito
atravessa a data
e troca a idade
gasta
do calendário

O espelho não muda
a velha imagem
mas espera a
morte perfeita
e imprevisível
com suas carpideiras
de lágrimas
fingidas

Solange Firmino


Imagem: mosaico do século VI em sinagoga de Israel, signos do zodíaco.

terça-feira, setembro 20, 2005

Leila Míccolis


Gata,
mas não borralheira,
nem mansa.

Gata,
que vira fera
se no seu rabo
alguém pisa,
é poeta,
não poetisa.

Do seu ninho,
feito em blocos,
não tem vergonha
de dizer palavrões.
Não tem bens
nem alqueires,
não tem medo
de nada.

Gata
escaldada
que ronrona
versos
no cio impudico.

Iguais a ela
há centenas,
mas, pra encurtar prosa,
somente ela é
Leila Míccolis.

Solange


Esse poema é dedicado a Leila, que, além de fazer muitas atividades relacionadas à cultura, é poeta, pois ela diz que "em poetisa todo mundo pisa"...
Visitem a página cultural www.blocosonline.com.br , onde, desde 1996, Leila Míccolis e Urhacy Faustino fazem um ótimo trabalho de divulgação da cultura brasileira.

Uma pequena biografia:
Leila Miccolis nasceu no Rio de Janeiro. É editora, professora de roteiro de televisão, promotora cultural e artista performática. Publicou, entre outros, os livros: Em perfeito mau estado, Editora Achiamé, Rio de Janeiro, 1987; Do poder ao poder - alternativas na poesia e no jornalismo nos anos 60, Editora Tchê, Rio Grande do Sul, 1987; O bom filho a casa torra, editoras Edicon e Blocos, São Paulo e Rio, 1992; Achadas e Perdidas e Sangue cenográfico, Editora Blocos, Rio de Janeiro, 1997.


*Foto e biografia na página:
http://www.secrel.com.br/jpoesia/lmiccolis.html

sexta-feira, setembro 02, 2005

Parthenon - Grécia

[Grécia - 2001]

PARTHENON

Ruínas sem cores
pintadas de pessoas ao redor

Turistas-formigas
passeiam
no monumento
plantado na memória
do mundo

Eu ali,
procurando
nas línguas que ouvi
uma palavra
que traduzisse
aquela paisagem

Solange Firmino

terça-feira, agosto 30, 2005

Parto


(...)

Tem dias que arranco
à força
a palavra-criança
dolorida
costurada
palavra-semente
sob anestesia

(...)

Solange Firmino

terça-feira, julho 19, 2005

Gabriel, meu filho


Inocência


Essa parte inteira de mim
nada sabe do instante
que passa pelo seu corpo
que cresce
nas fotografias diárias

Tampouco sabe das palavras do mundo
avessas ou fecundas
ditas ao vento
ou escritas na memória
e no papel

Imerso ainda em fonemas sem assombro,
nada sabe do futuro
de amanhã ou depois:
meu filho brinca
no tempo sem hora
que cerca seu momento
agora.

Solange Firmino



quinta-feira, julho 07, 2005

Não procure...



Não procure por mim
no chão alienado
das esquinas

Procura nos murmúrios
dos ventos livres
e impetuosos

Procura no sem-rumo
dos céus sem cor
à espera de arco-íris

Procura nos raios de sol
que envolvem
as distâncias

Procura no espaço inexplorado
que flutua acima
das formas passageiras

Solange Firmino



Imagem: Filomena Fonseca

quarta-feira, junho 22, 2005

Céu de Van Gogh

Trigal com corvos - Van Gogh

Onde ficam os passos
dos pássaros
nos vôos pelo céu?

Para onde vão as
marcas riscadas
em ziguezague
retas
círculos
rasantes
e linhas inexatas?

Quisera ter olhos
para ver...

Seriam como os riscos de
Van Gogh?

Solange Firmino

sábado, junho 18, 2005

Palavras... por Manoel de Barros

Somos parte da natureza. E, do mesmo modo, somos parte das palavras também. Quantas vezes uma palavra interrompe a gente e aparece? Quantas vezes ela se impõe sem que possamos entender por quê? Uns pensam que é mediunidade, mas é a palavra que fala em nós. Para um poeta,
a palavra que se impõe é mais forte que o sentido.

quarta-feira, junho 01, 2005

Metamorfose


METAMORFOSE

O casulo está cheio de silêncio.
Prepara a palavra na raiz.
O poema nasce do casulo-idéia.
Abre suas asas e
pousa na brancura do papel
à espera de fonemas
que se formem
e se transformem
em idéias
novamente.

Solange Firmino



terça-feira, maio 31, 2005

Van Gogh


"Um girassol se apropriou de Deus: foi em Van Gogh"

Manoel de Barros Posted by Hello

Árvore



* Foto tirada por mim no Jardim do Palácio da República.
Minha árvore preferida, Ficus Religiosa, ou algo parecido.
O poema é do Manoel de Barros.


Pertenço de fazer imagens.
Opero por semelhanças.
Retiro semelhanças de pessoas com árvores
de pessoas com rãs
de pessoas com pedras
etc etc.

Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso de obter sabedoria vegetal.
(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã
no talo.)
E quando esteja apropriado para pedra, terei também
sabedoria mineral.
Posted by Hello

sábado, maio 14, 2005

Prece noturna


Quem escuta nossa queixa?
A noite dorme.
A sombra é cega.
A lágrima é inútil.
Os versos soltos se escondem
nos umbrais.
Cortam como lâmina,
mas nada dizem
na solidão das ruas.
Em preto e branco,
cegos tateiam no firmamento
traçado no vácuo.
Meu sono perdido
amanhece no avesso.
Quem escuta minha prece?


Solange Firmino


* Imagem: "Starry night", de Van Gogh.

terça-feira, março 29, 2005

De palavras



Gastei uma hora pensando em um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.  [Drummond] 

Minhas palavras escorregaram para dentro.
quando as busco, ouço ecos dispersos que procuram por uma frase completa e definitiva.
Por indigestão de palavras, emudeço-me.
Engoli uma borboleta e virei casulo de mim.
 
[Nanda]


Larva-palavra
que cabe inteira
no clausuro do eu
o ritmo sobe
do abismo interno
casulo
prestes a acordar
e desata em
poema-borboleta

Solange Firmino


Apanhador de poemas


“Um poema sempre me pareceu algo assim como um pássaro engaiolado... E que, para apanhá-lo vivo, era preciso um cuidado infinito. Um poema não se pega a tiro. Nem a laço. Nem a grito. Não, o grito é o que mais o espanta. Um poema, é preciso esperá-lo com paciência e silenciosamente como um gato. É preciso que lhe armemos ciladas: com rimas, que são o seu alpiste; há poemas que só se deixam apanhar com isto. Outros que só ficam presos atrás das quatorze grades de um soneto. É preciso esperá-lo com assonâncias e aliterações, para que ele cante. É preciso recebê-lo com ritmo, para que ele comece a dançar. E há os poemas livres, imprevisíveis. Para esses é preciso inventar, na hora, armadilhas imprevistas.”

Mário Quintana


Imagem: ilustração de Vera Basile feita para o livro “O apanhador de poemas”, de Mario Quintana

sexta-feira, março 25, 2005

Palavras - Manoel de Barros

Veio me dizer que eu desestruturo a linguagem. Eu desestruturo a linguagem? Vejamos: eu estou bem sentado num lugar. Vem uma palavra e tira o lugar debaixo de mim. Tira o lugar em que eu estava sentado. Eu não fazia nada para que uma palavra me desalojasse daquele lugar. E eu nem atrapalhava a passagem de ninguém. Ao retirar debaixo de mim o lugar, eu desaprumei. Ali só havia um grilo com sua flauta de couro. O grilo feridava o silencio. Os moradores do lugar se queixam do grilo. Veio uma palavra e retirou o grilo da flauta. Agora eu pergunto: quem desestruturou a linguagem? Fui eu ou foram as palavras? E o lugar que retiraram debaixo de mim? Não era para terem retirado a mim do lugar? Foram as palavras pois que desestruturaram a linguagem. E não eu.

Manoel de Barros