sexta-feira, julho 03, 2020

Estátua

 No Museo Soumaya, Cidade do México.

(Para "O Pensador", de Auguste Rodin)

Penso em como não fugi
com os pés medrosos
eu tenho medo desse silêncio
em torno de mim
acabei virando
esse corpo imenso
espalhado pelo mundo
e eu nem sábio sou
só quero uma casa
onde possa me acasalar
mas meu corpo é duro
receiam me tocar
aguardarei uma eternidade
nesse castigo
pois nem sangro
encolhido
frio
nu

Solange Firmino



O Pensador é uma das mais famosas esculturas de bronze do escultor francês Auguste Rodin. 

A primeira escultura de "O Pensador" foi terminada em 1902. A original está em Paris, no Museu Rodin.

Mais de vinte cópias da escultura estão em museus em volta do mundo. Algumas das cópias são versões ampliadas da obra original, assim como as esculturas de diferentes proporções.  

Aqui no Brasil, no Instituto Ricardo Brennand na cidade de Recife, há uma versão ampliada da obra.

terça-feira, junho 30, 2020

Manhã de inverno em Copacabana - Rio de Janeiro

Eu de máscara no banco - Copacabana 26-06-2020
Embaixo das árvores
as ricas sombras convidam
pausa matinal

Solange Firmino


(No meu livro "Alguns haicais e mínimos poemas")

domingo, junho 21, 2020

Inverno - haicai

Janela do meu quarto

☁☁☁
As nuvens refletem
branca e espessa neblina
manhã orvalhada

Solange Firmino

sexta-feira, junho 19, 2020

Fim do outono

Foto no meu jardim

Vento leva as folhas
que enfeitam o jardim
lembranças do outono

Solange Firmino

sexta-feira, junho 05, 2020

Dia Mundial do Meio Ambiente



 A plastic ocean - Sony World Photography Awards - 2020 - vencedor da categoria Natureza Morta.🐟

📸 Jorge Reynal (Argentina)

quinta-feira, junho 04, 2020

A solidão é como o vento - Graça Pires

Livro da Graça na minha janela
O livro da Graça Pires chegou num dia nublado e meio chuvoso. Nesse pedaço do meu confinamento, às vezes dá para ver o céu azul:
Vista minha janela
Moro no segundo andar, mas a vista que tenho é dos fundos da parede do Palacete Cornélio, erguido em 1862, e que foi muito maltratado no decorrer das décadas. Está cedido atualmente para uma faculdade de medicina que o deixou em estado de abandono.

Interior Palacete Cornélio, anos atrás
Palacete, anos 50
O meu prédio, de 1936, é aquele duplo ali atrás, o Palacete é esse da frente. Ao lado, que não aparece na foto, fica o Palacete São Joaquim, onde o Papa Francisco fez a Oração do Ângelus na sacada, há poucos anos. Da minha janela até hoje avisto aquela palmeira...
No edifício em frente, do outro lado da rua, morou o escritor brasileiro Mario de Andrade. Nesse bairro onde moro e nessas ruas têm muita história.

Mas vamos voltar ao livro da minha amiga Graça. Gostei de todos, como sempre, mas meu carinho especial vai para o poema abaixo, que tanto achei que combina com a vista da minha janela.


Habitava aquele sítio por engano.
Não era ali o lugar que procurara para viver.
O que o fascinava era o deserto:
a boca viciada pela sede,
o vento ardido no olhar,
a seiva dos cactos infiltrados nas veias.
E, à distância da mão, a linha curva
do poente a incendiar-se de estrelas.
Em momentos da mais magoada solidão,
saem de seus olhos tempestades de areia.
Como se fosse um pranto.
 


Graça Pires


(Em: A solidão é como o vento)


sábado, maio 30, 2020

Poemas aos homens do nosso tempo


Sobre o vosso jazigo
– Homem político –
Nem compaixão, nem flores.
Apenas o escuro grito
dos homens.

Sobre os vossos filhos
– Homem político –
A desventura
do vosso nome.

E enquanto estiverdes
à frente da Pátria
sobre nós, a mordaça.
E sobre as vossas vidas
– Homem político –
Inexoravelmente, nossa morte.


Hilda Hilst. Em: Júbilo, memória, noviciado da paixão (1974).

sexta-feira, maio 15, 2020

O relógio - Cassiano Ricardo

Diante de coisa tão doída

conservemo-nos serenos
Cada minuto da vida

nunca é mais, é sempre menos
Ser é apenas uma face

do não ser, e não do ser
Desde o instante em que se nasce

já se começa a morrer.


Cassiano Ricardo

domingo, maio 10, 2020

Meu 17°dia das mães

Eu e meu filho na Ilha de Paquetá - RJ


Dizem que devemos dar dois presentes aos filhos: raízes para ficar e asas para voar. ‍‍

Como educadora, não tenho intenção de cortar asas, por isso, desde cedo, meu filho está no Escotismo, onde acampa, viaja e faz trilhas longe de mim, o que é inadmissível para algumas mães. ⛺

Como poeta, escrevo sobre o voo de Ícaro, o voo comedido. Antes de voar, aprender a caminhar. E celebrar os passos.👣

Nesta pandemia, o isolamento social nos impede de 
caminhar por aí como antes. 

Gostaria de ver você voar, meu filho.
Esse é o nosso 17°dia das mães juntos. 

Eu te amo, Gabriel. ♥️

quarta-feira, abril 22, 2020

Dia da Terra 2020 - comemorando 50 anos hoje


...Olhando a Terra Bendita verá

que tudo é como é, e livre será:

A Salvação não muda, nem destrói,

jardim, criança ou brinquedo corrói.

Mal não verá, pois este está imerso

não no que Deus fez, mas no olhar perverso,

não na fonte, mas em escolha errada,

e não no som, mas na voz quebrantada.

No Paraíso não estão mais confusos;

criam novo, sem mentira nos usos.

Criarão, é certo, não estando mortos,

poetas terão chamas como votos,

e harpas que sem falta tocarão:

do Todo cada um terá quinhão.


Trecho de Mythopoeia - Autor: J.R.R. Tolkien

Fluxos


Foto da minha janela em 22-04-2020



"Uma pessoa não entra no mesmo rio duas vezes; na segunda vez não é o mesmo rio nem a mesma pessoa"
[Heráclito de Éfeso, 500 a.C.]

Os dias se movimentam
em procissão contínua
águas de Heráclito
nos diferentes rios
relógios nas longas noites
siderais
astros e seus atos
em danças geométricas

Estrelas se formam
a cada instante que
inspiro
respiro
raios de sol tocam
seus acordes
nas frestas dos ventos
que copulam nas asas
dos pássaros
meu filho sorri no
mistério da existência

Silêncio ruído solstício
morte nascimento guerra
gira o mundo
em ritmo novo
repetição
sempre igual

 II

Nasci na entranha antiga
do tempo
pertenço às gerações guardadas
no princípio do mundo
secreto

Trilho o caminho incógnito
que me leva ao destino
que não sei se
é finito
ou perene

É certo que não decifro
a existência hermética
presa aos movimentos
dos equinócios
antes e depois
pulsante vaivém de
ontens
hojes
amanhãs

Pássaro na gaiola,
labirintos me perderam,
quero o fio que
Ariadne deu a Teseu.

Solange Firmino