sexta-feira, dezembro 09, 2005

Síndromes, complexos e literatura


Se você procurar “Peter Pan” entre as comunidades em português do Orkut, achará 136 ocorrências. As chamadas são muitas: se você gosta de fantasia e encantos, se sonha em ver o Peter Pan na janela vindo te buscar para viver na Terra do Nunca, se acha que a vida adulta é estressante e chata e não está a fim de assumir responsabilidades, você tem alguns motivos para ser fã do Peter Pan.

Peter Pan é um personagem tão conhecido quanto vários outros dos contos clássicos, como Cinderela e Chapeuzinho Vermelho. Eu o conheci pelas histórias de Walt Disney, nunca li o romance de J. M. Barrie, que criou a história de Peter Pan enquanto esteve com Sylvia Llewelyn Davies e sua família.

Em 1902, Barrie publicou seu livro. Em 1904, houve uma adaptação para a peça que estreou em Londres. Desde então, sua história ganhou várias adaptações, desde musicais a versões animadas para o cinema, de Walt Disney a Steven Spielberg. A última boa adaptação foi o filme “Em busca da Terra do Nunca” (Finding Neverland”), de Marc Forster, em que se imagina de modo muito romântico o que teria acontecido nos encontros de Barrie e a família de Sylvia.

Chorei muito com a história, que não representa exatamente a realidade, mas um conto de fadas nos moldes tradicionais, uma linda fantasia em homenagem ao escritor e seu personagem inspirador. E Barrie é Johnny Depp, o que faz com que eu deseje não ser eternamente criança...

Eu não era exatamente criança quando me interessei mais profundamente sobre por Peter Pan. Li o livro “Síndrome de Peter Pan”, do psicólogo americano Dan Kiley, não por que entendia de psicologia, eu tinha 15 anos e encontrei o livro na biblioteca da escola. Na década de 80, o livro era bastante famoso, como o Complexo de Cinderela, de Colette Dawling.

Depois da leitura, e não posso dizer que tenha entendido, eu quis ser psicóloga. Não sou. Peguei emprestado porque gostava das aventuras mágicas do menino que não queria crescer. Também não entendia muito bem o que era “aquele” crescer. Na época, crescer era não caber nos balanços que meu pai fazia nas árvores do quintal ou ter que aturar as gracinhas dos alunos das séries acima da minha.

A temática da Síndrome de Peter Pan é o crescimento, quando se quer ser sempre criança para não enfrentar as responsabilidades do mundo adulto, que não são poucas! O termo é psiquiátrico e designa o adulto que recusa esse comprometimento e não age conforme sua idade.

Muitos outros elementos da história de Peter Pan foram estudados em várias épocas, desde leituras freudianas com implicações sexuais até as relações arquetípicas de Wendy, quando uma mulher deseja homens imaturos e mais novos que ela.

Muitas síndromes têm seus conceitos baseados em personagens da literatura. Eles influenciam a vida pessoal de tal modo que passam a simbolizar, no coletivo, nossas angústias conscientes e inconscientes. A vida imita a arte ou a arte imita a vida?

Freud, a partir dos relatos de experiências infantis, baseou-se na tragédia de Sófocles, Édipo-Rei, para ilustrar seu Complexo de Édipo, aversão ao pai e preferência pela mãe. Édipo matou o pai, Laio, e casou com a própria mãe, Jocasta. Na mulher, a tendência contrária chama-se Complexo de Electra. Electra, filha de Agamenon e Clitemnestra, depois do assassinato de seu pai pelo amante da mãe, sente o desejo de vingar o pai, incitando a morte da mãe. Electra passa a simbolizar o amor passional pelos pais a ponto de querer sua igualdade pela morte.

Mas não só a literatura grega é inspiradora dos conceitos psicanalíticos. Qualquer outra obra que trate da complexidade do ser humano poder ser um protótipo ou arquétipo para o mundo real, como as figuras de Dom Quixote, Hamlet e praticamente todos os clássicos da literatura infantil.

Muito já se estudou sobre os simbolismos das histórias infantis em Charles Perrault, Hans Christian Andersen e os irmãos Jacob e Wilhelm Grimm, ou você nunca leu sobre o Barba Azul, O Patinho Feio, O Pequeno Polegar e a Bela Adormecida? Se pensar bem, todos têm sua conotação moral, e todos foram adaptados de várias maneiras com o passar dos séculos.

Don Juan é um personagem literário que também inspirou uma síndrome e vários filmes e adaptações, como em obras de Strauss e Mozart. Não faz muito tempo, Marlon Brando e Johnny Depp (de novo...) estrelaram no cinema o filme Don Juan de Marco. No século XVII, Don Juan foi um personagem atribuído ao dramaturgo espanhol Tireso de Molina. Hoje, na era do “ficar” como ideal de relacionamento, Don Juan é símbolo da libertinagem e do eterno sedutor.

E sedutora é para nós, adultos, que já vimos os dois lados da vida, a Terra do Nunca. É o lugar para onde desejamos ir sempre que não sabemos lidar com o chamado mundo real. Os sonhos morrem se não acreditamos neles. Sininho também. A crença na magia faz a imaginação voar. Não temos asas, mas até que já inventamos o avião, o sonho que muitos sonharam e puderam concretizar.

Não só as crianças sonham com a Terra do Nunca “crescer”. Nossa sociedade faz de tudo para preservar a jovialidade, mas só na beleza física, infelizmente. É o que se nota no esporte, na novela, no cinema, na música...

Em todos os períodos da história, diversos povos criaram seus mitos sobre a fonte da juventude. O tempo não pára e a morte é nossa única certeza. Como manter o corpo belo e jovem diante desse “infortúnio”? A jovialidade do espírito raramente é mencionada nos manuais e dietas para manter o corpo jovem.

Goethe terminou seu Fausto aos 82 anos e Franklin, aos 81 anos, ainda ajudava a elaborar a Constituição dos Estados Unidos. Exemplos assim só afirmam o lugar-comum de que jovialidade tem a ver com a alma e não com o corpo. Cada idade tem seus momentos bons e ruins e a literatura também pode ajudar a perceber isso, sem síndromes ou complexos.

Aliás, qual o seu complexo, digo, qual seu personagem preferido? O Lobo Mau ou um dos Três Porquinhos? A bela ou a fera? A bruxa ou a fada? Brincadeira. Mas envelhecer permanecendo o espírito jovem é o melhor que podemos fazer, já nos mostrou bem Peter Pan. E viajar pelo mundo da fantasia é um modo de lidar com o inconsciente sem repressões, mas deixe os complexos por lá mesmo!


Texto publicado na coluna Orkultural de 9 de dezembro de 2005.

*Imagem: Peter Pan.

2 comentários:

Rose disse...

Sol, que texto interessantíssimo. Adorei!

Um beijão e sábado de sol!
Rose :)

Vera disse...

Muito interessante sua matéria. Sem dúvida a literatura tem tudo a ver com o nosso reino interior, mesmo porque tem aí a sua origem, ou seja sai do inconsciente, esse depósito e central de criação, morada dos segredos e das coisas escondidas, da alegria e do terror, fonte do bem e do mal. Ao ser trabalhada pelo consciente dos gênios (também mortais) ela revela essas realidades, que de uma forma mais consciente ou mais intuitiva, extasia a todos nós.