terça-feira, janeiro 26, 2021

Prece (Nos tempos da Pandemia)

 


🛐 

Eu medito em outra língua
olho a ampulheta do tempo
e um mantra de ideias
me povoa nesse outono
mas tenho de enterrar meus mortos

Olho pela janela e vejo
a luz do sol entrar
agora tenho de jejuar
e pedir poemas futuros
para velar os que partiram

Solange Firmino


📸 Troféu do 16º Concurso Literário Mario Quintana - 
Categoria nacional - SINTRAJUFE - RS

segunda-feira, janeiro 18, 2021

Poesia no Twitter 2012


Quando o Twitter ainda tinha 140 caracteres e fazia concursos de poesia...
Este foi o ano III do prêmio, em 2012. Também participei do primeiro, em 2010.
Faziam um livrinho muito bonitinho chamado "Os cem melhores poemas do TOC140, poesia no Twitter".  

sexta-feira, janeiro 08, 2021

Relevo do avesso

 


Eu fico à margem,

na corda bamba,
enquanto o abismo recluso
estremece,
explode feito vulcão
e delineia a polêmica paisagem
sem curva da noite insone.

Quanto mais me assemelho
ao desassossego,
mais me desequilibro,
a ponto de cair no abismo.

Solange Firmino


Foto: México - Pirâmide de Tepanapa –  A Grande Pirâmide de Cholula mede 405 metros de cada lado e cobre uma área de aproximadamente 186 mil metros quadrados. 
Tem 66 metros de altura, quase a mesma altura da Pirâmide do Sol, que fica em Teotihuacan, também no México.

sexta-feira, dezembro 25, 2020

Confidência

 


Sou outra ao viver

eu que não me pertenço
me crio e me multiplico
entre muros e passos
na virgindade perpétua dos dias
nunca houve uma igual a mim
como hoje

Solange Firmino

quarta-feira, dezembro 16, 2020

Depois da chuva


 “Porque eis que passou o inverno;

a CHUVA cessou, e se foi.
Aparecem as FLORES na terra,
o tempo de cantar chega,
e a voz da rola ouve-se em nossa terra.
A figueira já deu os seus figos verdes,
e as vides em flor exalam o seu aroma;
levanta-te, meu amor, formosa minha, e vem.”

(Cânticos, 2:11-13, ACF)


*Rosa do meu jardim

quinta-feira, dezembro 10, 2020

Cubista



Meus labirintos se bifurcam 

em mosaicos internos
passagens secretas que procuro
sem saber onde me perdi
como entrelinhas em um texto
cato cacos e me refaço 
em palavras-átomos diárias: 
colo e abandono
muro e ponte
rabisco e tatuagem
prece e ceticismo
anarquia e estoicismo

confusa
mas real

Solange Firmino

terça-feira, dezembro 01, 2020

Das estações


Fala em segredo para mim seu nome.
Em que sábado você mora?
Nas aspas do poema ou em qualquer noite de lua?
Em dia de sol com sombra
ou no inverno inteiro à espera
da primavera?

Aquelas flores caídas do mês de setembro
são metáforas da vida breve.
Eu me refugio no fruto maduro.
Sou milenar em cada gesto
e me rasgo em cada palavra que brota do céu
descoberto, infinito, imenso.

Então o fruto de outono
também acaba?

Solange Firmino 


O poeta Marcelo de Brito Steil fez um poema sobre esse poema, que ponho abaixo:


terça-feira, novembro 24, 2020

Ferreira Gullar na ABL

 


24.11.2010 (10 anos atrás!) Ferreira Gullar autografando 'meu livro' dele “Em alguma parte alguma”.

A Secretaria Municipal de Educação premiou naquele dia, alunos e professores do projeto Poesia na Escola, do Programa "Rio, Uma Cidade de Leitores".

A cerimônia foi na Academia Brasileira de Letras com a presença dos poetas Ferreira Gullar e Ivan Junqueira. Gullar recebeu uma homenagem lítero-musical emocionante.

O projeto incluiu a edição de duas coletâneas com os poemas
selecionados pela SME: uma com poemas de alunos e outra com poemas de funcionários da rede e professores (2 poemas meus).

sábado, novembro 21, 2020

Vídeos de novembro


Haiku a Crono

 

El tiempo tiene miedo

de también ser tragado

por eso devora


Solange Firmino


Tradução e leitura: Cilene Firmino Savioli






(Re)verso


Possuída de desordem
escrevi os silêncios
que resgatei da memória.
Por um instante,
acreditei ser eterna.
Acordei fazendo versos.
Profanei metáforas.
Queria semear sílabas perfeitas.
Inesperadamente,
sangrei o inverossímil poema,
decepei minhas rimas preferidas.
Para desespero
dos sinos que dobravam.


Solange Firmino

Interpretação: Fernando Grecco - cantor lírico do Teatro Municipal de São Paulo desde 1992 e diretor da Cia. Ópera do Mendigo de teatro e música (SP): 


https://www.youtube.com/watch?v=GqTDyKtgFZc







A série "Um Poema, Uma Canção", criada durante a quarentena (Covid-19) por Fernando Grecco e José Palomares (Cia. Ópera do Mendigo / Coral Paulistano /Teatro Municipal de São Paulo), associa sempre um poema e uma canção em um vídeo. 

O meu poema “Esfinge” está associado a um trecho da semi-ópera O Rei Arthur, de Henry Purcell (barroco inglês). Aqui, duas alucinações em forma de sereias, criadas pelo “mago do mal”, tentam desviar Arthur do caminho, em sua tentativa de resgatar sua amada Guinevere das mãos do rei inimigo.

ESFINGE

Decifra meu enigma
e toda a verdade,
toda a essência
por trás do verso.

Segue pela trilha do meu corpo
e revela a paisagem escondida.
Repousa sem tédio no meu abraço.
Implora pelo princípio e fim
de cada ato.

Descobre o segredo que habita
onde me esquivo,
onde a pergunta é só disfarce,
reverso.

Se me escondo,
é para devorar melhor.


Solange Firmino


https://www.youtube.com/watch?v=1K6wUZtS26k





sábado, novembro 14, 2020

Insônia

 


A solidão do Céu não cabe nesse verso.

A noite escura sem lua
permeia tudo quanto é distante e solitário.

O céu mudo sopra as palavras que recolho em sua queda:
cacos abstratos dos quais invento minha própria noite.

Invoco, em meio à neblina,        
um canto manso que traduza meu existir em expansão.
O ventre do universo se expande no deserto da noite.

Contraio-me na luz inversa que me recompõe ao dia
para soletrar mais tarde meu cansaço.
Para onde vão os versos não escritos?

Solange Firmino 

sexta-feira, outubro 30, 2020

(Re)verso

 


Possuída de desordem,

escrevi os silêncios
que resgatei da memória.
Por um instante,
acreditei ser eterna.

Acordei fazendo versos.
Profanei metáforas.
Queria semear sílabas perfeitas.
Inesperadamente,
sangrei o inverossímil poema,
decepei minhas rimas preferidas.
Para desespero
dos sinos que dobravam.

Solange Firmino


*Foto: Eu em frente ao Templo de Dendur - Metropolitan Museum of Art - New York

segunda-feira, outubro 12, 2020

Dia da criança

 



Trago dentro de mim

ondas que se quebram
em um mar intranquilo.
Dispo-me,
semente e parto.
Lúcida,
como quem adia o voo.
Não quero ir ao sabor do vento,
adquiro um astrolábio
e parto em busca dos outonos
do mundo.
Não é tempo de morrer.
Protege minha fuga.

Solange Firmino 

terça-feira, outubro 06, 2020

Travessias

 


O tempo atravessa o mundo,
avança pelos detritos,
rasga o espaço e chora no ombro da noite
seu cansaço de insônia.

O tempo atravessa o mistério
das perguntas gastas
e o meu coração que bate fértil e materno.

O tempo atravessa a solidão humana,
tão indizível que nem cabe no verso.
Que é deserta e sem nome, insone e surda

O tempo
Em seu nascer-morrer sem fim nem começo,
atravessa o sol de outono
e o azul e frágil céu dos deuses.

Os deuses atravessam o tempo
e as fronteiras nuas das estrelas.

Ei-los, obscenos,
criando o Homem e o Universo.

Solange Firmino 


*Lua vista da minha janela em 02/10/2020

segunda-feira, setembro 28, 2020

Completude

 



Com medo do precipício
eu brinquei de ser outra.
Mesmo assim, tu me habitaste,
chamaste meu nome.

Lá onde começo e termino meu dia,
a fonte e a sede misturadas,
a onda e a chuva dentro delas me fizeram
descobrir meu solo.

O tempo que não envelhece
coabita comigo.
Assim encontrei a mim mesma.

Solange Firmino

terça-feira, setembro 22, 2020

Primavera

 

Flor do meu jardim

É preciso transgredir a distração da flor em gestação,
tocá-la infinitamente,
sorver-lhe o perfume,
soprar a gota de orvalho pousada em cada cor,
inventar um arco-íris
pelas arestas do vento,
abrir caminhos para a primavera.

A sombra se faz luz,
o inverno se desfolha.
Como se existisse um tempo das estações,
a primavera dá sinais,
despida das névoas,
como se fosse a primeira vez.


Solange Firmino

segunda-feira, setembro 21, 2020

Dia da árvore - 2 árvores, 2 poemas

 

Rua Arthur Bernardes - Catete - RJ

Resisto e sobrevivo
entre o desejo e a fúria,
no caminho novo
de cada dia finito.
Algo me chama no relógio,
chama viva que reclama um novo dia.

Choro, fujo, reclamo,
mas tenho de ressurgir
nos pedaços de tempo
soltos nas cinzas.

Solange Firmino




                                                           Floresta Amazônica, Pará - PA

Aqui o silêncio circunda
as testemunhas verdes
das florestas paraenses

mas podia ser em qualquer lugar
que tivesse árvore

qualquer lugar pode ficar sem paisagem
desde que tenha um ser humano

Solange Firmino


 

sábado, setembro 12, 2020

Alvoroço


Logo serei rochedo nessa hora sempre igual.
Conheço de cor o silêncio nômade,
aprendi a amar meu destino
e soletrar o que procuro.
Carrego nos ombros
o fim e o começo do mundo.
Meu mapa do tesouro
tem a validade do tempo preso à eternidade.
Nunca antecipei o futuro.

Solange Firmino


*Fotografia: Ilha de Paquetá - Rio de Janeiro 

sexta-feira, setembro 04, 2020

Praia do Paraíso

 


Sem demora, invento um barco

que vem no ritmo das marés
Nos rios rasos
há peixes que regressam à tona
mas me demoro com
o destino inventado
esperando outros azuis
Quero a paisagem sem relâmpago
gestos e passos sem âncora
Lutarei como sou


Solange Firmino


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Praia do Paraíso - Mosqueiro, Pará. 
A ilha do Mosqueiro é um distrito de Belém, uma ilha fluvial na costa
oriental do rio Pará, um braço sul do rio Amazonas, em frente à baía
do Marajó.
Possui 17 km de praias de água doce (e morninhas!) com movimento de maré.

segunda-feira, agosto 31, 2020

Devagar



Coleciono asas,
mas nenhuma me pertence.
Guardo-as para um
possível mergulho,
Impossíveis aventuras me sufocam,
apesar da rebeldia.
Juro que nunca quis ser a princesa
dos contos de fada.
Não sou ilha pronta para abarcar.

Então nos meus olhos
recapitulo a coreografia dos ventos;
transcrevo as linhas do deserto
para a pátria.
 
Vou devagar, no encalço arriscado
das aves que voam alto,
em busca da Terra Prometida.
Melhor morrer de cansaço que de solidão.

Solange Firmino

* Foto: Teotihuacán - México

segunda-feira, agosto 24, 2020

Já é quase setembro!

Um poema-deserto
encontra um oásis
no setembro florido

Descobre cores
olores
e o silêncio da semente
rasgando o ventre
da estação repetida

Um poema-fruto
brota nas rugas
do tempo cíclico

Solange Firmino


* Foto da minha irmã Sulla Mino, cidade de Dreiech, Alemanha. Em 16.08.2020