Aqui estão os inícios dos textos da coluna "Mito em Contexto", escritos por mais de 6 anos para o site Blocos online. Também estão alguns poemas dos 7 livros escritos por mim. E também alguns ensaios, haicais e outros textos.
terça-feira, março 29, 2022
Esfinge
quinta-feira, março 24, 2022
Sísifo
Mais um dia desperdiçado
na pedra que rola
escravidão na mesma reta
repetir
repetir
sigo o caminho
sem olhar ao redor
ou por cima dos ombros
sem tempo para fotografias
ou espelhos
nada
o chão escorre sob meus pés
é o começo de um novo dia
devo rolar a pedra
castigo que nunca termina
Solange Firmino
No livro “Quando a dor acabar”.
Pedra de Santo Antônio, em Fagundes, Paraíba - famosa pela tradição que diz que quem passar por debaixo dela três vezes, consegue pretendentes a casamento. Eu não passei nenhuma vez!
Escrevi anos atrás esse texto sobre o mito de Sísifo. segunda-feira, março 21, 2022
Erato - Dia Mundial da Poesia
Ouço o que
sussurra a Musa
no silêncio,
no princípio e no fim
do dia.
Fonemas,
palavras, dígitos,
impressões
tatuadas
nos papéis e nas telas.
Poesia, tu és
minha permanência,
meu rastro
pelo caminho
efêmero.
Solange Firmino
No livro “Fragmentos da insônia”.
* Imagem: Na Acrópole de Atenas, Grécia. Erecteion ao fundo, templo consagrado a Atena e Posídon. Fica ao lado do famoso Partenon.
** 21 de março foi escolhido como Dia Mundial da Poesia na XXX Conferência Geral da Unesco, em 1999, para homenagear a poesia, promover a diversidade das línguas e intercâmbio entre as culturas.
quinta-feira, março 17, 2022
Adeus manhãs de verão
Nômade
Decorei meu nome
para andar no sem rumo
dos abismos.
Observei os ventos
que se cruzavam
em desvios sonâmbulos
que estilhaçavam
os espelhos.
Vi as sereias chamando os marujos
nas praias bravas
que se desdobravam
e engoliam navios.
Percebi as sombras nos muros
das noites insones.
Fui cúmplice do brilho das estrelas
e do silêncio deslumbrado
das manhãs de verão.
Solange Firmino
No livro “Geometria do abismo”.
Imagem: Victor Nizotvtsev, "Golden Wave".
segunda-feira, março 14, 2022
Dia da poesia
quarta-feira, março 09, 2022
Haicais - Lena Jesus Ponte
http://lenajesusponte.com.br/
Na cidade, luzes.
Mas vaga-lumes insistem
acesos da gente
Onde o tempo é sempre.
Toca o silêncio do templo
o sino de bronze.
Desapego zen.
A casa vazia habita
a paz do silêncio.
Descansa o momento.
Até mesmo o movimento
encontra repouso.
Quem sabe da morte?
Morna brisa nos convida
a brindar a vida.
Lena Jesus Ponte
segunda-feira, março 07, 2022
Vídeo com leitura de poema
SÉPIA
Nos traços do dia
a palavra fora ou dentro
é impermanente
aguçada como a incandescência da luz
faz um silêncio tão grande
quanto as mãos no copo vazio
ardem na tarde ocasional
as cinzas e seu sopro vistos
através da claridade
na brisa transparente
do rio que vai arranhar o mar
Solange Firmino
terça-feira, março 01, 2022
InComunidade
Leiam esse e outros 2 poemas do meu novo livro na edição de março da revista portuguesa Incomunidade:
domingo, fevereiro 27, 2022
Árvore cortada
Postarei agora o que não postei antes, mas guardei, a árvore inteira, pois naquele dia estava nublado e as fotos saíram escuras. Vou postar em homenagem aos pássaros que perderam seus ninhos e as raízes que deixarão de crescer.
A árvore vã
segura o abandono
da estação
ela nunca escolhe
mas não arreda pé
de sua substância
ferida na seiva
desmancha-se
na sua profundidade
esperando atrair
os pássaros dementes
perdidos de seus ventos
Solange Firmino
Imagens: Rua Silveira Martins, Catete – RJ.
sexta-feira, fevereiro 18, 2022
Árvore fantasma
ATENÇÃO: HÁ UMA ATUALIZAÇÃO PARA ESSA POSTAGEM NO LINK A SEGUIR:
A árvore vã
segura o abandono
da estação
ela nunca escolhe
mas não arreda pé
de sua substância
ferida na seiva
desmancha-se
na sua profundidade
esperando atrair
os pássaros dementes
perdidos de seus ventos
Solange Firmino
Imagem: Por mim, hoje na Rua Silveira Martins, Catete – RJ.
quinta-feira, fevereiro 17, 2022
Lançamento do livro "Quando a dor acabar"
Se quiserem ler o que ele achou do livro, eis aqui:
Solange Firmino escreveu um livro que festeja o tempo na tensão entre esperança e desolação, fluidez e permanência.
Em Quando a dor acabar acontece a apropriação da ambiguidade na necessária constatação pelo imaterial.
Muitas são as questões que seu trabalho levanta, mas talvez a espinha dorsal da presente trama imagética seja a solidão engasgada na garganta poemática da poeta, dando aos versos a longitude imprecisa que impede qualquer alusão à absoluta estabilidade.
É uma solidão atravessada por muitas dimensões, e o permanente está no que muda, assim como a mudança só acontece porque perdura, como aponta o verso “sou permanente / mas estou de passagem”. Há aqui o rearranjo de alguns lugares que seriam comuns se não passassem pela leitura da autora: “o poema vai morrer em frases comuns / como as gotas que compõem as chuvas / e as geografias dos desertos”.
Engana-se quem se restringe a perceber nesses versos a trivialidade do fim, pois a questão que se levanta é a da unidade (o “tudo é um” de Heráclito). Ainda na trilha dos rearranjos, lemos “assim, desisto do texto original” e é possível dizer que não há abandono pela desistência, mas a assunção da impossibilidade de se firmar um lugar, pois o texto original é este que a cada instante se oculta no que tentamos enxergar.
Este livro é um exercício diário de existência, da percepção do fim como princípio, da morte como tensão (não restrita à extinção material), bem como nos diz o poema Sépia: “faz um silêncio tão grande / quanto as mãos num copo vazio”. Fábio Pessanha
*Quem quiser adquirir, deixe recado nos comentários.
terça-feira, fevereiro 15, 2022
Rascunho na insônia
Quero compor um canto de ninar
de tom sublime.
A canção mais terna,
que transcende o tempo e vai além do espaço,
pulsa em mim,
mas não consigo fazer música no descompasso de
desafinados amores,
além do mais,
desconheço notas e metáforas musicais.
Então tento compor uma narrativa. Navego sobre as
formas poéticas. Mas indecisa entre prosa ou poesia, pois minha prosa sempre foi presa, espero as palavras certas para reinventar versos sem rigor de métrica e rima. Minha atual metalinguagem só permite um refrão minimalista:
Vida.
Vida.
Vida.
Faço de dia um poema,
qual Penélope tecedeira,
para desfazer à noite
e refazer na insônia.
Desfio os novelos de Ariadne
com uma navalha que dilacera meus versos.
Rabisco no papiro tudo aquilo que o Aedo me sopra.
De vocabulário parco,
um poema que poeta algum escreveria revela-se para mim.
Não saberia recitar meus poemas,
nunca tive paciência para escandir versos,
por isso faço poucos haicais e nenhum soneto.
Sempre convido uma musa
para que venha velar meu sono
e trazer o ritmo,
iluminar meus dias,
ofertar os tons que me inspiram a Poesia.
Mexo na caixa de relíquias e ajeito conchas,
pedras, traços, cicatrizes,
retalhos desconexos,
anseios e conquistas que sustentam meu universo.
Tantas metas perdidas...
E alguns enigmas além das palavras
que me devoram como monstros.
Conheço a ordem das palavras nas frases
e decifro o enigma da Esfinge,
mas não aguento as Aves de Prometeu.
Fujo do Estige enquanto o trovador compõe
uma sátira em meu nome.
Harpias já começam a me rodear.
Mas meu ventre ainda é fértil,
não vou ceder agora.
Disfarço um olhar,
como se evitasse olhar a Medusa de frente.
Mas me Narciso:
miro-me e vejo máscaras no espelho.
Eu sou várias.
Ainda sobreviverei.
Já é dia, traços de luz enquadrinham o amanhecer.
Restarão estas palavras no papel.
Semente ou ovo, tudo (re)começa.
Amanhã deleto tudo e reescrevo.
Estou com sono finalmente.
Solange Firmino
No livro “Fragmentos da insônia”
Victor Nizovtsev

