sexta-feira, maio 15, 2020

O relógio - Cassiano Ricardo

Diante de coisa tão doída

conservemo-nos serenos
Cada minuto da vida

nunca é mais, é sempre menos
Ser é apenas uma face

do não ser, e não do ser
Desde o instante em que se nasce

já se começa a morrer.


Cassiano Ricardo

domingo, maio 10, 2020

Meu 17°dia das mães

Eu e meu filho na Ilha de Paquetá - RJ


Dizem que devemos dar dois presentes aos filhos: raízes para ficar e asas para voar. ‍‍

Como educadora, não tenho intenção de cortar asas, por isso, desde cedo, meu filho está no Escotismo, onde acampa, viaja e faz trilhas longe de mim, o que é inadmissível para algumas mães. ⛺

Como poeta, escrevo sobre o voo de Ícaro, o voo comedido. Antes de voar, aprender a caminhar. E celebrar os passos.👣

Nesta pandemia, o isolamento social nos impede de 
caminhar por aí como antes. 

Gostaria de ver você voar, meu filho.
Esse é o nosso 17°dia das mães juntos. 

Eu te amo, Gabriel. ♥️

quarta-feira, abril 22, 2020

Dia da Terra 2020 - comemorando 50 anos hoje


...Olhando a Terra Bendita verá

que tudo é como é, e livre será:

A Salvação não muda, nem destrói,

jardim, criança ou brinquedo corrói.

Mal não verá, pois este está imerso

não no que Deus fez, mas no olhar perverso,

não na fonte, mas em escolha errada,

e não no som, mas na voz quebrantada.

No Paraíso não estão mais confusos;

criam novo, sem mentira nos usos.

Criarão, é certo, não estando mortos,

poetas terão chamas como votos,

e harpas que sem falta tocarão:

do Todo cada um terá quinhão.


Trecho de Mythopoeia - Autor: J.R.R. Tolkien

Fluxos


Foto da minha janela em 22-04-2020



"Uma pessoa não entra no mesmo rio duas vezes; na segunda vez não é o mesmo rio nem a mesma pessoa"
[Heráclito de Éfeso, 500 a.C.]

Os dias se movimentam
em procissão contínua
águas de Heráclito
nos diferentes rios
relógios nas longas noites
siderais
astros e seus atos
em danças geométricas

Estrelas se formam
a cada instante que
inspiro
respiro
raios de sol tocam
seus acordes
nas frestas dos ventos
que copulam nas asas
dos pássaros
meu filho sorri no
mistério da existência

Silêncio ruído solstício
morte nascimento guerra
gira o mundo
em ritmo novo
repetição
sempre igual

 II

Nasci na entranha antiga
do tempo
pertenço às gerações guardadas
no princípio do mundo
secreto

Trilho o caminho incógnito
que me leva ao destino
que não sei se
é finito
ou perene

É certo que não decifro
a existência hermética
presa aos movimentos
dos equinócios
antes e depois
pulsante vaivém de
ontens
hojes
amanhãs

Pássaro na gaiola,
labirintos me perderam,
quero o fio que
Ariadne deu a Teseu.

Solange Firmino


segunda-feira, abril 13, 2020

Pera, uva, maçã ou beijo na boca? - 13 de abril - dia do beijo

Gustav Klimt - O Beijo

Um rapaz conversa com três moças sem vê-las. Depois de algumas perguntas e brincadeiras, escolhe qual delas beijará. Esse programa acontece em uma emissora de televisão. Mas beijo na telinha não é novidade há anos, novidade é a banalização do beijo.

A moda entre adolescentes é beijar muitas pessoas diferentes em uma só noite, durante as baladas. Pessoas que beijam muito tornam-se ídolos, principalmente se os beijos forem polêmicos, como aqueles protagonizados pelas cantoras Madonna, Britney Spears e Christina Aguilera, que há alguns anos cantaram juntas no palco. Madonna beijou uma, depois outra. Não era carinho, mas autopromoção.

Fora os "selinhos", que os artistas dão para saírem nas capas das revistas, há também o "beijo técnico", que ninguém que não é artista acredita que existe.

Existe mesmo uma grande variedade de beijos com diversos significados, que vão desde o beijo no rosto ao beijo ardente. E muitos já foram classificados em livros que indicam os diferentes tipos de beijo, de acordo com respiração, posição da língua e até salivação - ou baba.

Deve existir nesses livros o beijo infantil, como o que eu dava nas brincadeiras inocentes quando criança. Na minha infância, nos anos 80, revistinhas falavam sobre o primeiro beijo e davam dicas de como beijar. E eu lia muitas, antes de saber que nenhum ensinamento é lembrado na hora fatal.

Mas lembro bem da brincadeira em que "pera, uva, maçã ou salada mista" representavam o que você faria com a pessoa que estava na sua frente: aperto de mão, abraço, beijo ou "todos juntos". Salada mista virou beijo na boca. De olhos vendados, mas nem tanto, com a ajuda do sinal de quem cobria os olhos, era fácil dar um beijo na pessoa que interessava. Essa geração que se empolga com o beijo fácil certamente não se daria mal nos anos 80. 


Bem antes disso, no fim da Segunda Guerra, época retratada no filme Cinema Paradiso, em algum canto da Itália, onde não havia balada nem MTV, um velho cinema era a única diversão dos moradores da vila. Na hora do esperado beijo, a cena do filme era cortada, causando raiva nos espectadores. O padre assistia aos filmes antes e censurava cenas "indecentes" como um beijo. Não vou contar o final para quem não viu, mas o final do filme é uma das cenas mais comoventes a que já assisti, e tem a ver com beijos...

Beijos de cinema são tão famosos quanto beijos de contos de fada, em que princesas como Bela Adormecida e Branca de Neve são acordadas com beijos de belos príncipes, rompendo os encantos das bruxas. Também tem sapo que espera beijo para virar príncipe. Esperado também era o beijo que Judas deu em Jesus Cristo antes de traí-lo.

Entre encantos e traições, o beijo também pode trazer doenças. No beijo há troca de diversas substâncias como água, sais minerais e muitas bactérias e vírus. Alguns desses probleminhas podem ser resolvidos com higiene bucal, tema de famosas propagandas de cremes dentais, feita com filminhos de pessoas se beijando.

Fora as substâncias desagradáveis, bom é que além do prazer que pode proporcionar, beijar pode ajudar a perder calorias, afinal, dizem que um beijo na boca mobiliza vários músculos, além de acelerar as batidas cardíacas, o que faz melhorar a circulação do sangue.

Se você não sente mais aquele calorzinho e o coração acelerar com um beijo, é melhor se apaixonar de novo por outros beijos para não correr o risco de ficar obeso.

Beijos

Solange Firmino

domingo, abril 05, 2020

Haicai - Outono

Ao cair da tarde
as folhas amareladas
são sinais de outono 

Solange Firmino 



No meu livro "Alguns haicais e mínimos poemas".


📸 Folha caída no meu jardim.

domingo, março 08, 2020

Dia da Mulher


Pelo lado mais intranquilo da luz,
há vozes alheias
que me inquietam as mãos.
Um estranho signo
risca-me no ventre
a feminina morte
de todas as infâncias
em que, sílaba a sílaba,
me procurei na mais espessa
das noites, sem medo de emergir
de qualquer sombra.

Graça Pires


(Em: Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos)

domingo, janeiro 12, 2020

Abrigo


Manhã em Florianópolis.
Um passo em falso
e posso cair
com assombro
no poente
do abismo.

Vigio a insônia
e o relógio fatigado
antes de cortar os pulsos.

O que me salva é
o brilho
de outra manhã.


Solange Firmino

domingo, dezembro 22, 2019

Haicai de verão

Verão sossegado
somente a brisa do vento 
a soprar lá fora 

Solange Firmino 


📚No meu livro "Alguns haicais e mínimos poemas"

* O verão, no Hemisfério Sul, inicia-se hoje, 22/12/19, e vai até 20/03/20.

terça-feira, dezembro 03, 2019

sexta-feira, novembro 22, 2019

Maria Gorda

Para minha amiga Graça Pires em seu aniversário.

Foto por mim na praia dos Tamoios, Ilha de Paquetá - RJ
De delicadezas me construo.Trabalho umas rendas
uma casa de seda para uns olhos duros.
Pudesse livrar-me da maior espiral
que me circunda e onde sem querer me reconstruo!
Livrar-me de todo olhar que quando espreita, sofre
o grande desconforto de ver além dos outros.
Tenho tido esse olhar. E uma treva de dor
perpetuamente
do êxodo dos pássaros, do mais triste dos cães,
de uns rios pequenos morrendo sobre um leito exausto.
Livrar-me de mim mesma. E que para mim construam
aquelas delicadezas, umas rendas, uma casa de seda
para meus olhos duros."

Hilda Hilst - "Trajetória Poética do Ser (I) (1963-1966)


* Feliz Aniversário, Graça! Essa paisagem melancólica com barco me faz lembrar de você. Essa é a Maria Gorda, um baobá de 7 metros de circunferência, tombado pelo patrimônio histórico. Claro que só fotografei parte dela...

sexta-feira, novembro 01, 2019

DIA D - A FLOR E A NÁUSEA

Foto por mim no Aterro do Flamengo

(...)

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

(...)

Carlos Drummond de Andrade



quinta-feira, outubro 31, 2019

Dia D

Andrew Atroshenko 
Essa semana o editor do Alguma Poesia, (http://www.algumapoesia.com.br) colocou meu boletim em destaque. Ele saiu originalmente em 5 de julho de 2006. 

O texto à esquerda do boletim foi atualizado com uma nota embaixo, pois já publiquei 4 livros. E foram acrescentadas as belíssimas ilustrações.

Aproveito o dia D, 31 de outubro, nascimento do poeta Carlos Drummond de Andrade, para divulgar esse trabalho meu e o maravilhoso trabalho que o Carlos Machado faz em divulgar a Poesia. O Carlos fez o prefácio do meu primeiro livro, Fragmentos da insônia.

E tem um poema em homenagem ao Carlos Drummond de Andrade, que espero há alguns anos a premiação do Estado por ter ganho...
Obrigada, Carlos Machado!

Vejam aqui:

sexta-feira, outubro 18, 2019

Colhe a a alegria das flores



"Colhe a alegria das flores da primavera e brinca feliz enquanto é tempo. Sempre haverá os dias em que chegará o inverno e não terás o perfume das flores, nem o sol, nem a vivacidade das cores."
(Augusto Branco)

* Flor do meu jardim

terça-feira, outubro 15, 2019

Sabedoria vegetal

Aterro do Flamengo

Da árvore, admiro as raízes fincadas na terra fértil.
Quero ser forte como o caule
que suporta adversidades.
Venero os galhos que acolhem ninhos.

Invejo a sombra confortável
e os frutos que guardam a semente.
Quando chega o outono,
saúdo as folhas que enfeitam o chão,
húmus vegetal,                                            

começo de árvore em outra estação.

Solange Firmino

quarta-feira, outubro 09, 2019

Primavera

"É preciso transgredir a distração da flor em gestação,
tocá-la infinitamente,
sorver-lhe o perfume,
soprar a gota de orvalho pousada em cada cor,
inventar um arco-íris
pelas arestas do vento,
abrir caminhos para a primavera."
(...)
Solange Firmino

(Trecho do poema Despertar, no livro "Das estações")

* Flores do meu jardim.

segunda-feira, setembro 23, 2019

É primavera!
















(...)

A sombra se faz luz,
o inverno se desfolha.
Como se existisse um tempo das estações,
a primavera dá sinais,
despida das névoas,
como se fosse a primeira vez.

Solange Firmino

(Trecho do poema "Despertar", no livro “Das estações”)

1 ano México!


Hoje completa 1 ano que fui ao México! Visitei igrejas, pirâmides, ruínas, mas o lugar que mais me impressionou foi a Pirâmide da Lua, de onde podia se avistar todo o complexo, a Avenida dos Mortos e a Pirâmide do Sol ao fundo.
Aumentem as foto para ver o tamanho dela, é a terceira maior do mundo em altura, são quase 240 degraus, distribuídos em 5 plataformas. 
Ficamos horas na fila, no 'sol' escaldante; até descascou minha pele depois... 
Mas valeu a pena depois de chegar lá no topo.
Descer é que foi pior que subir, tivemos que driblar muitas pessoas.
Mas estávamos prontas para a maior pirâmide do mundo em volume, em Cholula, no dia seguinte.


sábado, setembro 21, 2019

Dia da Árvore

Foto por mim, em frente à casa da minha avó. 
Hoje, 21 de setembro, é dia da árvore!



FRUTO

A bondade da mangueira
não é o fruto.

É a sombra.

A térrea,
quotidiana,
abnegada sombra:
no inverso do suor colhida,
no avesso da mão guardada.

Há a estação dos frutos.
Ninguém celebra a estação das sombras.

Assim, o amor e a paixão:
um, fruto; outro, sombra.

A suave e cruel mordedura
do fruto em tua boca:
mais do que entrar em ti
eu quero ser tu.

O que em mim espanta:
não a obra do tempo
mas a viagem do Sol na seiva da árvore 
A arte da mangueira
é a veste de sombra
embrulhando o seu ventre solar.

Para o homem
vale a polpa.

Para a terra
só a semente conta. 


- Mia Couto, em "Tradutor de chuvas".

sexta-feira, julho 26, 2019

Prece noturna

"The Starry Night", Vincent Van Gogh
Quem escuta nossa queixa?
A noite dorme.
A sombra é cega.
A lágrima é inútil.


Os versos soltos se escondem
nos umbrais.
Cortam como lâmina,
mas nada dizem
na solidão das ruas.


Em preto e branco,
cegos tateiam no firmamento
traçado no vácuo.


Meu sono perdido
amanhece no avesso.
Quem escuta minha prece?


Solange Firmino


* Ouça a linda canção do filme Vincent, de Don McLean.


domingo, julho 21, 2019

Crepúsculo

No resto do dia despojos do sol
solitário
cansado de brilhar

emprestam seu reflexo
para um sorriso
de lua
escancarada no céu


como um lustre suspenso
esperando um uivo
qualquer


Solange Firmino


 (No meu livro:  "Fragmentos da insônia")  







#nasa50thanniversary


De lua


Tenho fases instáveis,
como as marés
à mercê do tempo mutável.

Escondo-me e mostro-me
nos contínuos fluxos do cotidiano.
Pairo suspensa e inquieta
na sombra sonâmbula da noite.
No meu eclipse, sou o próprio sol.
Vago em órbita excêntrica.

Tenho faces ocultas,
crateras, elipse,
esfera, dragão.

Pareço incompleta,
mas junta-me no fim dos ciclos
e me verás inteira
e luminosa.

Solange Firmino 

(No meu livro: 📒 "Fragmentos da insônia")  



#nasa50thanniversary

quinta-feira, julho 18, 2019

Eclipse



Eclipse

A lua espera 
debruçada na janela 
vestir-se de sol

Solange Firmino 

(No meu livro: 📒 "Fragmentos da insônia") 



#nasa50thanniversary

domingo, maio 26, 2019

Basílica de Guadalupe no México

Antiga Basílica de Guadalupe no México, séc XVI


São de granito cinzento 
as cúpulas dos templos antigos: 
a música profana e sagrada
no rebordo das pedras.

Graça Pires


(De A incidência da luz, 2011, p. 7)


Nova Basílica de Guadalupe no México

A Basílica de Guadalupe, na Cidade do México, é o maior templo católico do continente americano. O Santuário possui duas basílicas. A mais nova, de 1974, e a mais antiga, do século XVI, que, assim como diversas outras construções da Cidade do México (que foi construída em cima de um lago movediço), está afundando.